Nos primeiros meses de 2025, uma corrente de surpresas políticas tem tido impacto nas agendas das empresas – e parece provável que haja mais perturbações. Esta turbulência tem um impacto real nos negócios: a nossa análise a quase sete mil organizações ao longo de um período de 20 anos mostra que a variação na rentabilidade das empresas pode ser cada vez mais atribuída a fatores que estão para além da empresa e do seu setor. Os fatores contextuais – como a geopolítica, a tecnologia e o clima – são agora responsáveis por 43% da variação das margens de lucro líquido das empresas cotadas em bolsa.
Cada vez mais, a política é a fonte de surpresas que reverberam nas salas de reuniões de todo o mundo. Após a II Guerra Mundial, a maior parte dos países do mundo ocidental abraçou o crescimento económico como um objectivo primordial, acompanhado pelo apoio dos governos nacionais as actividades empresariais. Actualmente, com a crescente divisão social e política em muitos países e com o aumento das tensões geopolíticas entre eles, este apoio já não pode ser considerado um dado adquirido.
Como podem, então, os CEO e as suas equipas gerir a actual era de disrupção política? Têm de compreender e definir estratégias para o risco político. Vamos explorar como.
Porque é que o risco político actual é diferente
O risco político é materialmente diferente de outros factores de risco em vários aspectos importantes. Tem uma frequência elevada. Ao contrário das pandemias ou dos choques económicos, a influência política pode criar uma disrupção significativa com uma cadência regular.
Na era digital, as novas políticas podem ser anunciadas, modificadas e revertidas diariamente, obrigando as empresas a reunir rapidamente e a reagir em tempo real. E multidimensional. As mudanças nas políticas podem afectar as empresas em múltiplas dimensões. Por exemplo, as ordens executivas dos EUA emitidas em Janeiro e Fevereiro têm implicações na economia (como a introdução de tarifas sobre países e produtos), na força de trabalho (como o retrocesso das iniciativas de DEI – Diversidade, Equidade e Inclusão), na sustentabilidade (incluindo a retirada dos EUA do Acordo de Paris sobre a acção climática) e muito mais. Alem disso, essas influências ocorrem em diferentes períodos: algumas exigem uma resposta imediata, enquanto outras necessitam de ajustes a longo prazo. E surpreendente. Algumas intervenções políticas recentes parecem ter surgido do nada (como o facto de os EUA terem suspendido a aplicação de leis que proíbem o suborno de funcionários estrangeiros).
Mesmo as que são sinalizadas com antecedência são frequentemente ambíguas nos seus pormenores: por exemplo, a introdução de tarifas sobre as importações para os EUA era de esperar – mas não se sabe quando serão aplicadas, que países e produtos serão afectados e durante quanto tempo estarão em vigor.
Esta incerteza aumenta quando as políticas são interrompidas, alteradas ou anuladas poucos dias ap6s a sua introdução, quer pelo próprio poder executivo dos EUA, quer por decisões judiciais.
E menos controlável. As surpresas contextuais, como as catástrofes climáticas ou a eclosão de conflitos armados, são verdadeiros acontecimentos do tipo cisne negro – fenómenos difíceis de prever ou controlar. Os factores políticos têm sido historicamente mais previsíveis nas ultimas décadas devido ao amplo alinhamento entre a política e a economia, com as empresas a poderem exercer influência sobre a regulamentação através de lobbies. Actualmente, com as prioridades políticas a serem cada vez mais orientadas pela política partidária e pela protecção da segurança nacional, o cenário político tornou-se menos moldável pelas empresas.
Esta dependente do empenho. Muitos tipos de riscos empresariais – como as alterações demográficas – têm de ser enfrentados por todos os intervenientes. Mas o risco político é diferente, porque o seu impacto numa empresa individual depende do facto de a empresa optar por interagir com ele e da forma como o faz. As decisões políticas podem ser tomadas de forma diferente, dependendo do facto de a comunidade empresarial, no seu conjunto, decidir envolver-se nelas e da forma como o faz.
Tendo em conta estas considerações, como podem as empresas reflectir o risco político nas suas estratégias? As empresas podem tentar recolher e interpretar sinais fracos que indiquem quais as políticas que podem vir a seguir – por exemplo, inferindo o sentimento publico sobre questões relevantes. As decisoes políticas podem ser tomadas de forma di ferente, dependendo do facto de a comuni dade empresarial, no seu conjunto, decidir envolver-se nelas e da forma como o faz. Tendo em conta estas considerac;oes, como podem as empresas reflectir o risco politico nas suas estrategias?
Criar estratégias para o risco político: seis passos
Desenvolvemos um processo de definiçao de estratégias para o risco político que pode ser subdividido em duas fases: consciencialização e resposta.
Consciencialização
Observar o cenário político. Para criarem estratégias para o risco político, os executivos precisam primeiro de aceitar a ideia de que já não é suficiente concentrarem-se apenas na empresa e no seu ambiente de mercado: a secção de política do jornal tornou-se tão importante como as secções de negócios e de financas.
As empresas precisam de desenvolver a capacidade de detectar as tendências políticas – por exemplo, envolvendo-se com representantes eleitos e participando em conferencias ou delegações políticas. A participação em coligações industriais, que apoiam os seus membros empresariais pela monitorização de regulamentos relevantes e pela facilitação de interacções com decisores políticos, e outra medida pragmática. Ao compreenderem os desenvolvimentos políticos relevantes, as empresas podem definir e acompanhar os KPI relacionados para verem sinais precoces de que as questões ganham destaque. Por exemplo, a Tetra Pak, uma gigante europeia do processamento e embalagem de alimentos, acompanha e interpreta mais de 40 indicadores globais, incluindo regulamentos sobre embalagens e resíduos e investimentos em infraestruturas de reciclagem.
Antecipar o impacto das acções políticas: Para se prepararem para os potenciais efeitos das decisões políticas, as empresas precisam de pensar em termos de cenários. Extrapolando ou combinando as tendências políticas actuais – ou mesmo, como sugeriu o Fórum Económico Mundial, inspirando-se nas descrições de ficção cientifica de realidades alternativas -, os estrategas podem elaborar possíveis estados futuros da paisagem política, de modo a compreenderem melhor as oportunidades e os riscos associados.
Escolher as batalhas. Como os riscos políticos podem ser diferentes consoante a forma como a empresa interage com eles, os executivos também precisam de incluir uma fase de triagem explicita para decidir se e como se devem envolver. De modo geral, as empresas devem pro curar evitar o envolvimento desnecessário em debates políticos, que podem facilmente resultar em reacções píblicas ou políticas negativas. O envolvimento deve centrar-se em questões políticas directamente relacionadas com a actividade económica principal da empresa, tornando o seu envolvimento legítimo e um contribuinte competente para o debate. Por exemplo, as fabricantes de autom6veis devem participar nos regulamentos de segurança dos veículos ou nas normas de emissões.
Investir na preparação. Dada a imprevisibilidade e a natureza multidimensional do risco político, é mais importante do que nunca que as empresas invistam numa melhor preparação para lidar com o impacto frequentemente rápido das surpresas políticas. Esta resiliência pode assumir diferentes formas – por exemplo, assegurar a flexibilidade necessária para recuperar rapidamente as operações críticas (investindo numa cadeia de abastecimento diversificada, para que os factores de produção ou os fornecedores possam ser rapidamente substituídos quando são aplicadas tarifas); conceber amortecedores contra potenciais choques (diversificando o portefólio de produtos ou acumulando montantes em dinheiro); ou criar uma cadeia de abastecimento modular (para que o impacto dos choques seja contido).
Por exemplo, vejamos as actividades da IKEA na Rússia: após a anexação da Crimeia pela Rússia em 2014, a IKEA envidou esforcos significativos para tornar a produção local e desligar a Rússia do resto da sua cadeia de abastecimento global, de modo a poder conter melhor os efeitos de um choque que poderia resultar de uma nova escalada do conflito. Quando a Rússia iniciou uma guerra com a Ucrânia em 2022, a saída da IKEA do país foi mais fácil do que a dos seus pares cujas actividades locais permaneceram profundamente ligadas às operações globais.
Adaptar-se ao novo normal. Embora uma boa preparacão ajude as empresas a sobreviverem à turbulência, a mera sobrevivência é necessária, mas não suficiente. Pensamos muitas vezes que os choques são temporários quando, na realidade, criam frequentemente um novo normal. Ao adaptarem-se a esta situação mais rapidamente do que os seus pares do sector, ou mesmo ao avançarem para novos estados finais de forma proactiva, as empresas podem obter uma vantagem. Por exemplo, em antecipação à introdução de um imposto sobre os refrigerantes açucarados no Reino Unido, a Coca-Cola reformulou a sua oferta sem açúcar, a Coca-Cola Zero Açúcar, para ter um sabor mais parecido com o da Coca-Cola clássica, ao mesmo tempo que lancava a sua maior campanha de marketing numa década no país para promover a bebida. Isto ajudou a Zero Açúcar a tornar-se um dos cinco principais refrigerantes do Reino Unido em termos de vendas ate 2024.
Moldar de forma selectiva. Embora as questões políticas sejam difíceis de controlar, isto não significa que as empresas devam ser sempre passivas. Pelo contrário, devem ser selectivas na tentativa de moldar as políticas, concentrando os seus esforços em questões relacionadas com a actividade principal e onde a influência da empresa faca a diferença – por outras palavras, não em questões de política partidária ou de seguranca nacional.
Alem de decidirem quando se envolver, as empresas também precisam de considerar como exercer a sua influência – principalmente se não forem a maior ou mais influente empresa do seu sector. Muitas vezes influenciar a elaboração de políticas exige cooperação, como a definição de normas no âmbito de uma coligação industrial. Exemplos clássicos de auto-regulação são os sistemas de classificação que os estúdios de cinema dos EUA e, mais tarde, os produtores de jogos de video adoptaram para informar os consumidores sobre a adequação dos conteúdos a diferentes públicos. Ambos os sistemas foram iniciados em antecipação de uma intervenção regulamentar e acabaram por antecipar a regulamentação e orientar o comportamento dos consumidores.













